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terça-feira, fevereiro 09, 2010

Ciência forense já é regra, mas está longe do CSI


O recurso à ciência forense passou de excepção a regra em meio século, a idade do Laboratório de Polícia Científica português. O que não quer dizer que séries como o CSI sejam fiéis à realidade. Na televisão, tudo é sempre mais rápido.

“Passámos de uma realidade de excepção para uma realidade de massa. Há alguns anos atrás, [os exames forenses] eram situações raríssimas”, realça Carlos Farinha, director do Laboratório de Polícia Científica (LPC), unidade integrada na Polícia Judiciária (PJ).

Salpicos de sangue, análises de ADN, exames balísticos - várias séries de televisão circulam actualmente à volta de peritos forenses expeditos em dar aos vestígios de crime um significado.

Cada salpico de sangue pode fornecer elementos de leitura num cenário de crime - movimento, sentido, projecção, conteúdo.

O LPC recolhe, analisa e regista vestígios de crime, sujeitando-os depois a uma série de perícias nos domínios relevantes - balística, biologia, escrita manual, toxicologia.

Mas a realidade é, porém, bem diferente da revelada no CSI, salienta Carlos Farinha, a propósito dos 50 anos da introdução da ciência forense em Portugal.

Séries como o CSI têm “dois lados negativos”. Por um lado, “ignoram a morosidade necessária das coisas”, refere, recordando que o LPC faz “milhares de análises por ano” e que ainda é corriqueiro um resultado demorar 90 dias a estar pronto, e isto se for urgente.

Sequenciadores e outros aparelhómetros levam o seu tempo, apesar de não dormirem de noite e trabalharem 24 horas por dia.

O LPC está dividido em três áreas. A criminalística “trabalha fora de portas”, deslocando-se ao local do crime e fazendo a primeira recolha de vestígios, que depois distribui pelas outras áreas: biotoxicologia ou físico-documental. Para a primeira vão as substâncias em estado líquido (soros, manchas de sangue); para a segunda seguem os sólidos (documentos, armas, moeda).

Até 1974 havia “450 a 500 pedidos por ano”, refere Fátima Barbosa, responsável pela área físico-documental, acrescentando que “depois houve um aumento gradual, crescente e por vezes bem acelerado”. Desde 1999, rondam os 1500 por ano.

A área da biotoxicologia tinha “200 exames por ano” até à chegada do ADN - depois os pedidos “aumentaram mil por cento”, explica Sandra Santos, chefe daquela secção. “Há exames que podiam não ser solicitados, mas o ADN entrou na rotina do pedido, banalizou-se”, descreve, contrapondo que este devia ser o “último recurso”, porque “é o mais caro e o que exige mais dispêndio técnico”.

A recolha de elementos no local de um homicídio “pode demorar seis a sete horas”, explica Fernando Viegas, responsável pela equipa que sai para a rua “70 a 80” vezes por mês e que tem capacidade para atender três situações em simultâneo.

“O CSI dá uma noção errada. A ciência tem limites. Os equipamentos ajudam, mas nós somos pessoas, não somos perfeitos, não conseguimos ler tudo”, destaca. Mas “a ciência forense vai-se desenvolvendo muito depressa” e a “ligação com laboratórios estrangeiros é uma pedra-chave na evolução”.

O processo de produção de resposta exige um método validado - dois peritos comunicam o resultado, um terceiro, sénior, confirma-o. “Na dúvida, não se arrisca uma resposta. Temos de dizer o que fazemos e fazer o que dizemos, porque todo o trabalho pode ser contraditado em audiência”, explica Carlos Farinha.

“A pior coisa é que [as séries de TV] nos retiram sentido crítico”, desabafa, explicando: “Aquelas bases de dados, em que basta clicar num botão, não existem, e ainda bem. Felizmente, não são possíveis. O triângulo segurança, liberdade e justiça passaria a ser um mito à distância de um clique.”

Mas nem tudo é mau e o CSI também ?aumentou a sensibilidade para a preservação dos locais do crime?, servindo para ?disciplinar o público?, reconhece.

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